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Caetano Veloso
CAETANO VELOSO
PHILIPS - 365.222
Tropicalia - 1967
Faixas:
Lado A
01 - Alegria, Alegria
Lado B
02 - Remelexo
"Alegria, Alegria" foi a música que apresentou o movimento tropicalista ao Brasil, em apresentação ao vivo realizada no III Festival da TV Record, em 1967. O ideal exposto pela letra da canção foi reforçado pelo rock do grupo argentino Beat Boys, que ainda colaborou com a estética visual.
"O aspecto do grupo de rapazes de cabelos muito longos portando guitarras maciças e coloridas re-resentava de modo gritante tudo o que os nacionalistas da MPB mais odiavam e temiam", explica Caetano no livro Verdade Tropical. A ideia de Caetano - já pensando na introdução do tropicalismo, ao lado de Gilberto Gil - era a de fazer uma espécie de "marcha de carnaval transformada", cuja letra expusesse as referências pop da época. Ele resgatou uma composição dele, do meio dos anos 60, "Clever Boy Samba", escrita como sátira aos jovens alienados de Salvador. "Rapidamente compreendi que se o tom de mera sátira devia ser subvertido, o esquema de retrato, na primeira pessoa, de um jovem típico da época andando pelas ruas da cidade (o Rio, agora), com fortes sugestões visuais, criadas, se possível, pela simples menção de nomes de produtos, personalidades, lugares e funções - pois esse era o esquema de 'Clever Boy Samba' -, devia ser mantido pois era o ideal para os novos propósitos" Caetano Veloso.
Single foi lançada com Remelexo no lado B em 1967 e também integrou o álbum Caetano Veloso. O nome da música veio, por sua vez, de um bordão que o cantor Wilson Simonal utilizava em seu programa na TV Record, Show em Si... Monal.
A letra possui uma estrutura cinematográfica, conforme definiu Décio Pignatari, trata-se de uma "letra-câmera-na-mão", citando o mote do Cinema Novo. Caetano ainda incluíu uma pequena citação do livro As Palavras, de Jean-Paul Sartre: "nada nos bolsos e nada nas mãos", que acabou virando "nada no bolso ou nas mãos". Como a ideia do arranjo incluía guitarras elétricas, Caetano e seu empresário na época, Guilherme Araújo convidaram o grupo argentino radicado em São Paulo Beat Boys o arranjo foi fortemente influenciado pelo trabalho dos Beatles. Ela é considerada a 10ª maior canção brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil.
A canção chocou os chamados "tradicionalistas" da música popular brasileira devido a simples presença de guitarras. No ambiente político-cultural da época, setores de esquerda classificavam a influência do Rock como alienação cultural, o que também foi sentido por Gilberto Gil quando apresentou Domingo no Parque no mesmo festival.
Apesar da rejeição inicial, a música acabou conquistando a maior parte da platéia. Acabou se tornando uma das favoritas, com as manifestações favoráveis superando as facções mais nacionalistas. A música acabou chegando em quarto lugar na premiação final.
Caetano Veloso
CAETANO VELOSO
PHILIPS - R 765.086 L
Tropicalia - 1969
Faixas:
Lado A
01 - Irene
02 - The Empty Boat
03 - Marinheiro Só
04 - Lost in the Paradise
05 - Atrás do Trio Elétrico
06 - Os Argonautas
Lado B
07 - Carolina
08 - Cambalache
09 - Não Identificado
10 - Chuvas de Verão
11 - Acrilírico
12 - Alfômega
"Gravei só com Gilberto Gil ao violão, quando estava confinado, sem poder sair de Salvador. Até ir para o exílio em Londres, era impensável eu tocar violão num LP. Todo mundo achava meu violão abaixo do nível profissional. É um disco da minha situação na prisão. Tem Irene, que fiz na cadeia, sem violão, uma coisa portuguesa, que adoro. Gosto muito de sermos portugueses. Adorei a canção Portuga, do último disco do Cazuza. Tem Os Argonautas, que me foi sugerida por Bethânia. Tem Carolina, que é muito deprimida e tinha a ver com o disco. Fiz o disco confinado, gravamos eu e Gil lá em casa, num gravador de quatro canais. Tem Atrás do Trio, Elétrico, que é histórica. É o momento inaugural de toda a fase nova da música baiana. Tenho orgulho. Desencadeou o incremento dos trios elétricos. Fez Dodô e Osmar voltarem às ruas. A complementação dela veio com o Gil, na música Filhos de Gandhi. Foi o estopim para a onda de novos blocos.
Resultou em tudo isso, na música da Bahia." .... Por Caetano Veloso.
Apesar da qualidade técnica com que foi gravado, soa muito bem até hoje.
Começando com "Irene" com seu palíndromo ("irene ri") que tem uma gravação despojada e excelente, seguido por "The empty boat", a adaptação de "Marinheiro só" samba de roda com coro, prato e guitarra e "Lost in the paradise", a segunda em inglês.
Tem "Atrás do trio elétrico", popular nos carnavais até hoje. "Os argonautas", tema que remete ao verso de Fernando Pessoa, feita para Bethânia (e gravada por ela em 1969 no disco "Ao vivo"), a versão de "Carolina" que Chico Buarque não gostou...
(…) e ficou magoado, tanto assim que a sua reação negativa chegou a ser publicada. Ele deve ter-se perguntado o porquê de alguém se debruçar sobre uma canção à qual ele não dava grande importância. Carolina havia se tornado um hit nacional. E eu, na cadeia, na Bahia, via Carolina ser cantada naqueles programas infantis pré-Xuxa, por aquelas crianças baianas de sotaque carregado e de cara de gente pobre. E, além disso, havia um disco chamado “As Favoritas do Presidente Costa e Silva”, com dez canções cantadas por Agnaldo Rayol. Uma delas era Carolina. Então eu escolhi Carolina entre outras canções para representar o grau de depressão em que a gente estava.
Revista do CD, entrevista a J.J Moraes - 05/1992
A releitura do tango "Cambalache"- crítico e dramático, como definiu Augusto de Campos.
Na sequência o hit "Não identificado" em versão cheia de sons não identificados, psicodélicos, "Chuvas de verão" de Fernando Lobo.
Por fim, merecendo destaque especial, a canto-falada poesia-experiência "Acrilírico", feita em parceria com o maestro Rogério Duprat, e "Alfômega" que é a maior ousadia e desbunde do disco com um canto arrastado de Caetano e os vocais gritados de Gil.
Um disco de despedida acenando o exílio.
Caetano Veloso
CAETANO VELOSO
PHILIPS - 365.236
Tropicalia - 1968
Faixas:
Lado A
01 - Yes, Nós Temos Bananas
Lado B
02 - Ai De Mim, Copacabana
Caetano Veloso
CAETANO VELOSO
PHILIPS - 365.296
Tropicalia - Psych - 1969
Faixas:
Lado A
01 - Charles, Anjo 45 - C/Jorge Ben
Lado B
02 - Não Identificado
O ano era 1969 e a ditadura no comando do Brasil, reprimindo toda e qualquer oposição, torturando gente nas celas de delegacias, matando guerrilheiros, sabotando ações e investigando os artistas.
Nos idos de 1960 os comandantes dos morros talvez tivessem um quê de inocência. De qualquer forma, para quem pensava que era de hoje que a ausência do Estado tornava possível a ascensão de um traficante como benfeitor social, aí está “Charles Anjo 45″, a letra fala de um bandido da vizinhança onde Jorge Ben morava.
Como se já não bastasse o frisson que o artista plástico Hélio Oiticica havia causado com sua estampa de uma foto de jornal que mostrava um traficante famoso à época, o Cara de Cavalo, morto pela polícia e legendada pelo artista com a provocativa frase “Seja marginal, seja herói”.
Sendo assim a ditadura viu na letra mais uma apologia ao banditismo, a letra de “Charles Anjo 45″ era ainda pior, devia estar fazendo referências aos guerrilheiros. A Lamarca, ou a Che Guevara. Sendo assim acharam que não pegava bem sair por aí cantando um marginal. Não demorou para que os militares chamassem todo mundo para se explicar.
Jorge não teve maiores problemas, já Caetano… bom, logo Caetano seria sutilmente induzido a sair do país, junto com seu amigo Gilberto Gil.
Entrevista do próprio Jorge Ben (Veja e Roda-Viva) esclarecendo quem era o verdadeiro Charles Anjo 45.
“Eu chamo Charles de anjo 45 porque ele era um cara bom, muito sentimento. Eu acho que ele é um anjo porque ele tem aquêle pulso, um pulso forte, ele tem um coração bom, o coração bom pros caras que são bons e o pulso forte pros inimigos. Então eu acho que ele é um anjo, ele é um justiceiro.
O Charles é um amigo lá do Rio Comprido, da Tijuca, de infância. É um cara que por motivos diversos aos meus se meteu em bobagem. Bobagem, não sei, ele tava na dele… O Charles tinha mil coisas, tinha ponto de bicho, tinha boca de fumo, mas é um cara bacana, sensacionai, pô. Ele foi preso por causa de uma 45. Ele usava 45, depois é que ele foi preso, condenado. O nome dele é Charles Antônio Sodré, ele é filho de português, ele deve ter uns 28, 29 anos. Ele não tem crime nenhum".
Caetano Veloso & Os Mutantes
CAETANO VELOSO & OS MUTANTES
PHILIPS - 365.257
Tropicalia - Psych - 1968
Faixas:
Lado A
01 - É Proibido Proibir
Lado B
02 - Ambiente De Festival (É Proibido Proibir)
É Proibido Proibir, de Caetano Veloso é um dos acontecimentos máximos daquele setembro de 1968. Caetano agora em companhia dos Mutantes transformam a canção num "Happening" durante a fase de classificação do III Festival Internacional da Canção (FIC), um esporro sonoro, visual devidamente registrado pelas câmeras da TV Globo.
A palavra "Happening" (Acontecimento) passou a expressar algo mais, passou a significar multiplicidade de eventos revirando-se em dimensão histórica, força futurista imantando o presente e elevando linhas de passado a sofrerem guinadas e mutações.
No Teatro da Universidade Católica (TUCA), em São Paulo diante de um público histórico, numa noite memorável e inesquecível, Caetano Veloso faria valer toda sua sabedoria e seu estilo para domar as feras daquela horda que berrava enfurecidamente nas poltronas.
Para contrabalançar aquela histeria coletiva, Caetano fez um longo, inflamado, porém sereno discurso impregnado de sabedoria que iria determinar novamente os rumos da MPB.
Algumas passagens daquela diabólica oratória:
“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?... Mas que juventude é essa?... Vocês jamais conterão ninguém... Vocês são iguais aos que foram na “Roda Viva” e espancaram os atores... O problema é o seguinte: estão querendo policiar a música brasileira... E vocês? Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!... Deus está solto!...
“O episódio É proibido proibir ressume-se no seguinte: Guilherme Araújo, meu empresário, me mostrou na revista Manchete uma reportagem sobre os acontecimentos de maio em Paris que eu não quis ler, pois tenho preguiça de ler. Lembro-me que ele mesmo virou a página e disse: é engraçado, eles pixaram coisas lindas nas paredes. Esta frase aqui é linda - ‘é proibido proibir’. Eu falei. É lindíssima. Ele falou faça uma música usando esse negócio como refrão. Eu disse - ta. Passou. Eu não fiz. Daí ele me cobrou. Eu disse, faço. Achei meio boba, mas bonitinha. Todo mundo na hora achou bonita. No dia seguinte eu já a achava péssima. Até hoje só gosto do ritmo e de uma parte da letra que diz 'eu digo sim, eu digo não ao não'. Veio o festival da Globo. Eu não tinha nenhuma música bacana pra botar. Nem muita vontade de entrar no festival. Só me convenci a concorrer quando decidi pegar aquela música que eu não gostava e fazer uma esculhambação com o festival. A canção foi escondida pelo happening e pelas vaias. Sérgio Ricardo ficou intrigado nos bastidores ao ver minha alegria: ‘não entendo como vocês podem ficar tão contentes de serem vaiados’. Quando voltei para repetir a música Questão de ordem do Gil tinha sido desclassificada (o que me enfureceu porque eu achava o número dele genial) enquanto o meu É proibido proibir tinha merecido do júri as melhores notas. Entrei no teatro decidido a dar um esporro. E dei. Disse que o júri era incompetente e a platéia burra ou coisa assim. Ta lá no disco. (...) Até hoje me orgulho de tê-lo feito. E me congratulo comigo mesmo pelo fato daquela canção estar esquecida. De fato, falou-se muito do escândalo, mas o disco não vendeu e, de todas as canções que eu escrevi desde Alegria, alegria pra cá, É proibido proibir é uma das menos conhecidas do público. Jamais admitirei que alguém a tome como típica do movimento tropicália ou do meu trabalho em particular”.
(Caetano Veloso).
Naquela noite de festival no TUCA, todos os meninotes universitários feridos, reagiram violentamente aos novos significados contidos no bloco de informações que recebiam. Depois a ânsia de ‘estar por dentro’ abrandou as iras e trouxe adesões, dentro e fora do mundinho classe A e B dos universitários.
(Rogério Duprat).
Quando, nos anos 60, houve uma explosão criativa na MPB, o veículo que melhor industrializou as novas idéias foi a tevê. Lembra dos Festivais da Record? Num momento, a tevê chegou a ser um veículo de vanguarda se antecipando à própria capacidade de compreensão do público, dos estudantes, em particular, dos críticos e dos próprios músicos. Refiro-me àquela dramática noite da fase paulista do Festival da Globo de 1968, quando Caetano apresentou, ou tentou e tendo o Brasil inteiro contra si, a tevê foi o veículo com o qual ele contou para fazer aquela lúcida, agressiva e mais importante denúncia, que representou a meu ver, e parafraseando John Lennon, o ‘fim do sonho’ de um dos períodos mais vivos e criativos de nossa MPB.
(Júlio Medaglia).
Na eliminatória paulista de um daqueles FIC’s que o Marzagão promovia, nós acompanhávamos Caetano em É proibido proibir. No dia da final paulista Gil entrou em cena tocando uma calota de carro, e foi desclassificado. Em solidariedade, Caetano retirou a música, o que acabou nos classificando para o FIC com a música Caminhante noturno, que era suplente na classificação. E lá fomos nós para o Maracanãzinho, curtir nossa grande chance. Lá chegando, vejam vocês, fomos recebidos com um abaixo-assinado dos músicos e críticos, pedindo nossa desclassificação porque usávamos guitarras elétricas e não fazíamos MPB! Ah, sim: as quatro primeiras assinaturas da lista eu me lembro bem. Eram as de Geraldo Vandré, Danilo Caymmi, Edu Lobo e Sérgio Cabral”. O pessoal mais conservador se irritava com isso, cobrava um posicionamento - mania de classificação - o abaixo-assinado dos compositores tradicionais diziam que se recusavam a participar do festival por nossa culpa. Eles afirmavam que a guitarra não tinha nada a ver com MPB. E a gente lá, recebendo uma força dos baianos. Era a Tropicália quebrando preconceitos.
(Rita Lee).
Caetano Veloso & Os Mutantes
CAETANO VELOSO & OS MUTANTES - Ao Vivo
PHILIPS - 441.429 PT
Psych - Tropicalia - 1968
Faixas:
Lado A
01 - A Voz Do Morto
02 - Baby
Lado B
03 - Saudosismo
04 - Marcianita
Tropicalia ou Panis Et Circensis
TROPICALIA - Panis Et Circenses
PHILIPS - R 765.040 L
Tropicalia - Psych - 1968
Faixas:
Lado A
01 -Miserere Nóbis
02 - Coração Materno
03 - Panis et Circensis
04 - Lindonéia
05 - Parque Industrial
06 - Geléia Geral
Lado B
07 - Baby
08 - Três Caravelas [Las Três Carabelas]
09 - Enquanto Seu Lobo não Vem
10 - Mamãe, Coragem
11 - Bat Macumba
12 - Hino do Senhor do Bom Fim
O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968.
Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das participações da cantora Gal Costa e do cantor-compositor Tom Zé, da banda Mutantes, e do maestro Rogério Duprat. A cantora Nara Leão e os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto completaram o grupo, que teve também o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte como um de seus principais mentores intelectuais.
Os tropicalistas deram um histórico passo à frente no meio musical brasileiro. A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da “qualidade musical” no País estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos ligados à esquerda.
Contra essas tendências, o grupo baiano e seus colaboradores procuram universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. Ao mesmo tempo, sintonizaram a eletricidade com as informações da vanguarda erudita por meio dos inovadores arranjos de maestros como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela.
Ao unir o popular, o pop e o experimentalismo estético, as idéias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas da própria cultura nacional.
Seguindo a melhor das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incorporando novas informações e referências de seu tempo, o Tropicalismo renovou radicalmente a letra de música.
Letristas e poetas, Torquato Neto e Capinan compuseram com Gilberto Gil e Caetano Veloso trabalhos cuja complexidade e qualidade foram marcantes para diferentes gerações. Os diálogos com obras literárias como as de Oswald de Andrade ou dos poetas concretistas elevaram algumas composições tropicalistas ao status de poesia.
Suas canções compunham um quadro crítico e complexo do País – uma conjunção do Brasil arcaico e suas tradições, do Brasil moderno e sua cultura de massa e até de um Brasil futurista, com astronautas e discos voadores.
Elas sofisticaram o repertório de nossa música popular, instaurando em discos comerciais procedimentos e questões até então associados apenas ao campo das vanguardas conceituais.
Sincrético e inovador, aberto e incorporador, o Tropicalismo misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais rumba, mais bolero, mais baião. Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no País. Pop x folclore. Alta cultura x cultura de massas. Tradição x vanguarda. Essa ruptura estratégica aprofundou o contato com formas populares ao mesmo tempo em que assumiu atitudes experimentais para a época.
Discos antológicos foram produzidos, como a obra coletiva Tropicália ou Panis et Circensis e os primeiros discos de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Enquanto Caetano entra em estúdio ao lado dos maestros Júlio Medaglia e Damiano Cozzela, Gil grava seu disco com os arranjos de Rogério Duprat e da banda os Mutantes.
Nesses discos, se registrariam vários clássicos, como as canções-manifesto “Tropicália” (Caetano) e “Geléia Geral” (Gil e Torquato). A televisão foi outro meio fundamental de atuação do grupo – principalmente os festivais de música popular da época. A eclosão do movimento deu-se com as ruidosas apresentações, em arranjos eletrificados, da marcha “Alegria, alegria”, de Caetano, e da cantiga de capoeira “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, no III Festival de MPB da TV Record, em 1967.
Irreverente, a Tropicália transformou os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas.
O movimento, libertário por excelência, durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Seu fim começou com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968. A cultura do País, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade e dos trópicos.
Caetano Veloso
CAETANO VELOSO
PHILIPS - R 765.026 L
Tropicalia - Psych - 1968
Faixa:
Lado A
01 - Tropicália
02 - Clarice
03 - No Dia Em Que Eu Vim-me Embora
04 - Alegria, Alegria
05 - Onde Andarás
06 - Anunciação
Lado B
07 - Superbacana
08 - Paisagem Útil
09 - Clara - com Gal Costa
10 - Soy Loco Por Ti, América
11 - Ave Maria
12 - Eles
Quando eu estava preparando meu segundo LP (aquele para o qual Rogério Duarte fez uma capa com mulher e dragão e retrato oval), escrevi um texto prafrentex para a contracapa. Durante o período de gravações, recebi em São Paulo a visita de Fernando Lôbo (autor de ‘Chuvas de Verão’, música que vim a gravar algum tempo depois na cidade de Salvador, onde gozei grilado quatro meses de confinamento). Era uma visita profissional ele vinha buscar o texto da contracapa e marcou, pelo telefone, um encontro no Patachou pedindo que eu o levasse. Eu disse OK mas não achei o texto na hora de sair nem nunca mais. À mesa do restaurante, eu informei Fernando da perda e ele me informou da necessidade de voltar na manhã seguinte para o Rio com tudo pronto para imprimir a contracapa: caso contrário o disco atrasaria um mês. Como eu preferia que o disco saísse péssimo do que atrasado, concordei em aceitar o papel e a caneta que ele me oferecia enquanto me ameaçava com a terrível informação. Reescrevi ali mesmo o babado todo que eu pensava ter esquecido. Enquanto eu trabalhava, as pessoas conversavam. Inclusive comigo. "Eu gostaria de fazer", eu ia tentando lembrar, "uma canção de protestos de estima e consideração, mas esta língua portuguesa me deixa louco" eu escrevi e imediatamente percebi que não tinha escrito "rouco" como da primeira versão. Cortei "louco" e escrevi "rouco" em seguida. Não sei se foi isso que deu a Fernando a idéia de reproduzir meu manuscrito na contracapa do disco ou se ele já havia falado nisso antes. Só sei que concordei com essa idéia para não dificultar as coisas: na época eu teria preferido que o texto saísse datilografado; algum tempo depois eu preferiria impresso mesmo; hoje, não sei. De qualquer forma, eu gostava da piada. Não tanto da que resultou do erro, mas da piada original. Por nada: apenas porque dizer que a língua portuguesa me deixa rouco era verdade, enquanto que dizer que a mesma me deixa louco dava a impressão de que eu tinha em mente ressaltar mais uma vez o fato de nós falarmos e escrevermos numa língua não exportável. Quando, na verdade, eu não estava, sentindo nada disso. Pelo contrário: estava alegríssimo, compondo desbragadamente, sem sonhar com exportação.
Caetano Veloso em texto para o Pasquim - 26/03 a 01/04/70
• Contracapa do disco...
Caetano Veloso
Que maravilhoso país o nosso, onde se pode contratar quarenta músicos para tocar ‘um’ uníssono. (Miles Davis, durante uma gravação).
Antes havia Orlando Silva & flautas e até mesmo no meio do meio dia. Antes havia os prados e os bosques na gravura dos meus olhos. Antes de ontem o céu estava muito azul e eu e ela passamos por baixo desse céu, ao mesmo tempo com medo dos cachorros e sem muita pressa de chegar do lado de lá.do lado de cá não resta quase ninguém.
Apenas os sapatos polidos refletem os automóveis que, por sua vez, polidos, refletem os sapatos assim per omnia até que (por absoluta falta de vento) tudo sobe num redemoinho leve, me deixando entrever um resto de rosto ou outro, pedaços, amém. Marina sabe a história do pelicano etc. etc. o peito aberto e rasgado etc. etc. mas que nada: quando a gente não tem nenhuma necessidade de ir para os States não há mesmo mais esperança.
Eu gostaria de fazer uma canção de protestos de estima e consideração, mas essa língua portuguesa me deixa rouco. Os acordes dissonantes já não bastam para cobrir nossas vergonhas, nossa nudez transatlântica. E, no entanto, Ele é um gênio: quem ousaria dedicar este disco a João Gilberto? Quantos anos você tem? Como é que você se chama, quando é que você me ama, onde é que vamos morar?
Os automóveis parecem voar, os automóveis parecem voar por cima (mas mais alto que o Caravelle) dos telhados azuis de Lisboa, dos teus olhos, dos mais incríveis umbigos de todas as mulheres em transe, dos teus cabelos cortados mais curtos que os meus, meu amor, porque eu não quero, porque eu não devo explicar absolutamente nada.
P.S.: Gil, hoje não tem sopa na varanda de Maria.
Caetano Veloso
CAETANO VELOSO - Araçá Azul
PHILIPS - 6349.054
Tropicalia - 1973
Faixas:
Lado A
01 - Viola, Meu Bem
02 - De Conversa / Cravo e Canela
03 - Tu Me Acostumbraste
04 - Gilberto Misterioso
05 - De Palavra em Palavra
06 - De Cara / Eu Quero Essa Mulher
Lado B
07 - Sugar Cane Fields Forever
08 - Júlia / Moreno
09 - Épico
10 - Araçá Blue
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